segunda-feira, 31 de agosto de 2009

"Frequentemente tenho longas conversas comigo mesmo, e sou tão inteligente que algumas vezes não entendo uma palavra do que estou a dizer!"

Óscar Wilde

"O mundo pode ser um palco. Mas o elenco é um horror."
Oscar Wilde

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Eu (Não) Sou Charlotte Simmons

Sou viciada em livros, é um facto.

Jefferson Luiz Maleski, dizia:
“Aquele que tem por vício a leitura, droga alucinógena das mais leves, acabará cada vez mais dependente dela. E o pior, passará para drogas mais pesadas, como a escrita. Nesta fase crítica, o leitor, agora escritor, tende a fugir regularmente da realidade e ter devaneios de que, assim como Deus, é criador de Universos inteiros.”

Não sou daquelas pessoas que diz que adora ler em todo o lado a toda a hora, não, sem dúvida, isso faria com que o acto de ler perdesse metade do encanto, o inesperado virar de página, o encontro imprevisto e incerto de novas histórias, de novas personagens.


Contudo, quando começo a ler, faço-me sempre acompanhar do livro e, quando menos espero, (re)começo a viagem, porque as melhores viagens que fazemos são, e serão sempre, lendo bons livros.


A verdade é que cada livro não é um texto, mas um palimpsesto, no qual lemos ou relemos em filigrana todas as nossas leituras anteriores. Não há leituras definitivas: “A leitura de um livro antes lido e relido, e que, anos mais tarde você torna a pegar e a lê-lo de novo, da primeira à última página, esmoendo-o, analisando com exactidão cada frase, compreendendo tudo, interpretando cada passagem, descobrindo o que permanecia obscuro ou duvidoso, de tal sorte que, ao cabo, possa afirmar ‘este eu assimilei inteiramente, não há nada mais, em todo ele, que não saiba’”. O verdadeiro leitor não tem “livro único”, mais importante que os demais.



O livro que comecei a ler esta semana foi “Eu Sou a Charlotte Simmons”, de Tom Wolfe,, um jornalista e escritor norte-americano, conhecido por seu estilo marcadamente irónico. Nos EUA, é considerado um dos fundadores do "new journalism", movimento jornalístico dos anos 60 e 70.





Na obra, Tom Wolfe traça um panorama das universidades americanas no início do século XXI. O autor acompanha a chegada da linda e inteligente Charlotte Simmons, uma caloira brilhante e deslumbrada, à vida universitária regada a sexo fortuito e doses extras de álcool.
Ainda vou a meio do livro, com 700 páginas, mas penso já ter lido o suficiente para traçar uma crítica ao autor.


Ora bem, o objectivo de Tom Wolfe é criticar a juventude materialista, vazia, exageradamente abusadora da sua libertinagem, consumidores compulsivos de bebidas alcoólicas e praticantes de sexo desenfreado, sem qualquer tipo de envolvimento social. Uma juventude que vive entre a tensão racial, a luta entre classes e a falta de horizontes intelectuais!
O que acontece, na realidade, na obra, é que Wolfe, ao querer criticar um extremo da juventude de hoje, usou um outro extremo: Charlotte Simmons – uma campónia que nunca tinha saído das montanhas até ir para a universidade, altura essa em que consegue entrar numa das melhores universidades dos E.U.A., arrecadando ainda uma bolsa de estudos; a nível académico é um génio; com 18 anos já leu todos os grandes clássicos; é uma católica praticante exemplar; é virgem; nunca apanhou uma bebedeira; não diz palavrões e fica escandalizada só de ouvir os colegas dizer a palavra “mer**”.


Apesar de detestar os dois extremos, estou a adorar o livro. Não é uma literatura compacta, mas é intensa, descreve as personagens e as cenas de uma forma “nua” que, por vezes, choca, e refiro-me a ambas as partes envolvidas, quer no caso de Charlotte, quer na restante comunidade académica.


Bem, agora uma crítica ao Sr. Wollfe: penso que não tomou a melhor opção ao usar um extremo, para criticar outro, pois, dessa forma, o livro torna-se muito enfadonho, existindo apenas o preto e o branco. Além disso se queria retratar a realidade dos dias de hoje, apesar da juventude estar bem retratada a nível linguístico e organizacional, a personagem que usou para a criticar é completamente descontextualizada e desleal do retrato realista que pretendia conferir à obra.


E digo mais: o autor John C. Parkin lançou um livro intitulado “Fuck It”, onde defende que devemos começar a usar a expressão em voz alta e acredita que ela funcionará como um catalizador para mudarmos a nossa vida. Para melhor. Segundo ele, se somarmos, durante uma semana, todos os «sim» que na realidade deveriam ter sido «não», vamos ficar exaustos com a soma. E com o estrago que fizemos na mossa qualidade de vida.
"Quantas vezes já lhe apeteceu? Quantas vezes engoliu em seco e não foi capaz de o dizer? Experimente fazê-lo, uma vez. Esqueça o que os outros vão pensar ou que considerações vão tecer. Diga «fuck it». Diga-o, em voz alta. Às vezes, é terapêutico."


Sabe que mais Mr. Wolfe? Eu concordo com John Parkin e acho que, quando um jovem, como qualquer pessoa de outra(s) idade(s) está realmente chateado, nunca dirá (para bem da sua saúde mental): “Caquinha para isto tudo”!,
Nem mesmo Charlotte Simmons*

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Instruções para Salvar o Mundo (e a nós próprios)*

Li, ainda há poucos dias, o livro "Instruções Para Salvar o Mundo". E descobri que,sim, era mesmo isto que eu precisava, instruções para salvar este mundo de crise. Não crise económica, que essa vai e vem, conforme a gula dos que nos controlam, mas a crise de valores, essa sim, que permanece e apodrece, cada vez mais, com o passar dos tempos e das gerações.

Retirei algumas frases que degustei com muito prazer. Espero que também a vós, vos ajude a salvar o mundo, ou, pelo menos, o vosso mundo*



“Era essa a profissão do irmão de Marina. Cirurgião plástico. Um médico que escolhia especializar-se em estética sabia muito bem porque o fazia – para conseguir um andar de luxo como este, para se tornar milionário e levar uma vida de sumptuosos tão falsa como os implantes com que enchia a peitaça das suas pacientes: trémulos grumos de silicone escorregadios e fofos com medusas. Que nojo.”
Página 84

“- Imagina um quilo de sopa de letras. Aquelas pequenas letras de massa, sabes. Imagina agora que as deitas numa panela. Ficariam todas misturadas. Esse é o ponto de equilíbrio da entropia. Ou seja, o ponto de desordem máximo. Mas imagina que alguém forma palavras com as letras, ou que separa todos os «M» por um lado e todos os «S» por outro. Se espreitares a panela e vires que as letras estão separadas e ordenadas, sabes com certeza que alguém o fez. Pois é isso que a vida faz. Ordena as letras essenciais do Universo. A vida é, então, ordem. É um pensamento bonito.”
Página 96

“Sei que às vezes a vida aperta tanto que não deixa lugar para respirar. E então bebo. (…) Há bons truques contra o desespero, e todos passam por sairmos de nós próprios. Do buraco da nossa própria pena.”
Página 161

“Já sabes, nós somos pós de estrelas.”
Página 162

“Tudo o que aprendemos nas nossas vidas breves não é mais do que uma ninharia insubstancial arrancada à enormidade do que nunca saberemos.”
Página 164

“Mas agradeço-te, porque as boas acções melhoram o mundo.”
Página 196

sábado, 15 de agosto de 2009

Se não fosse desta linda cidade, eu não era o que sou*

Poema de Teixeira de Pascoaes, poeta amarantino, onde este descreve a excelência da sua (nossa!) cidade. Só para quem conhece e tem sensibilidade para apreciar a grandiosidade e beleza de Amarante!




"Ai, se não fosse a névoa da manhã
e a velhinha janela onde me vou
debruçar para ouvir a voz das cousas,
eu não era o que sou.

Se não fosse esta fonte que chorava
e como nós cantava e que secou ...
e este sol que eu comungo, de joelhos,
eu não era o que sou.

Ai, se não fosse este luar que chama
os espectros à Vida, e se infiltrou,
como fluido mágico, em meu ser,
eu não era o que sou.

E se a estrela da tarde não brilhasse;
e se não fosse o vento que embalou
meu coração e as nuvens nos seus braços,
eu não era o que sou.

Ai, se não fosse a noite misteriosa
que meus olhos de sombras povoou
e de vozes sombrias meus ouvidos,
eu não era o que sou.

Sem esta terra funda e fundo rio
que ergue as asas e sobe em claro vôo;
sem estes ermos montes e arvoredos
eu não era o que sou."

( As Sombras )

TEIXEIRA DE PASCOAES

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Jornalismo, a arte de chegar atrasado logo que possível*

Como disse um grande escritor sueco, Stig Dagerman, “o jornalismo é a arte de chegar atrasado logo que possível”.

Na verdade o jornalismo é o primeiro coveiro do presente, empurrando logo que possível as novidades para o passado.


O jornalista vive sempre no passado, uma espécie de passado ínfimo, olhando para o futuro, mas sempre no “imediatamente após”, recolhendo sempre os vestígios das coisas que acabaram de ocorrer. É como alguém que assiste à festa e depois varre o chão da sala. Decantando permanentemente esse passado instantâneo é impossível que o jornalista não fique saturado de nostalgia".

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

"Eu venho de longe
Estou quase a chegar
Apresento-me hoje
Porque amanhã, não vou estar."