Sou viciada em livros, é um facto.
Jefferson Luiz Maleski, dizia:
“Aquele que tem por vício a leitura, droga alucinógena das mais leves, acabará cada vez mais dependente dela. E o pior, passará para drogas mais pesadas, como a escrita. Nesta fase crítica, o leitor, agora escritor, tende a fugir regularmente da realidade e ter devaneios de que, assim como Deus, é criador de Universos inteiros.”
Não sou daquelas pessoas que diz que adora ler em todo o lado a toda a hora, não, sem dúvida, isso faria com que o acto de ler perdesse metade do encanto, o inesperado virar de página, o encontro imprevisto e incerto de novas histórias, de novas personagens.
Contudo, quando começo a ler, faço-me sempre acompanhar do livro e, quando menos espero, (re)começo a viagem, porque as melhores viagens que fazemos são, e serão sempre, lendo bons livros.
A verdade é que cada livro não é um texto, mas um palimpsesto, no qual lemos ou relemos em filigrana todas as nossas leituras anteriores. Não há leituras definitivas: “A leitura de um livro antes lido e relido, e que, anos mais tarde você torna a pegar e a lê-lo de novo, da primeira à última página, esmoendo-o, analisando com exactidão cada frase, compreendendo tudo, interpretando cada passagem, descobrindo o que permanecia obscuro ou duvidoso, de tal sorte que, ao cabo, possa afirmar ‘este eu assimilei inteiramente, não há nada mais, em todo ele, que não saiba’”. O verdadeiro leitor não tem “livro único”, mais importante que os demais.
O livro que comecei a ler esta semana foi “Eu Sou a Charlotte Simmons”, de Tom Wolfe,, um jornalista e escritor norte-americano, conhecido por seu estilo marcadamente irónico. Nos EUA, é considerado um dos fundadores do "new journalism", movimento jornalístico dos anos 60 e 70.
Na obra, Tom Wolfe traça um panorama das universidades americanas no início do século XXI. O autor acompanha a chegada da linda e inteligente Charlotte Simmons, uma caloira brilhante e deslumbrada, à vida universitária regada a sexo fortuito e doses extras de álcool.
Ainda vou a meio do livro, com 700 páginas, mas penso já ter lido o suficiente para traçar uma crítica ao autor.
Ora bem, o objectivo de Tom Wolfe é criticar a juventude materialista, vazia, exageradamente abusadora da sua libertinagem, consumidores compulsivos de bebidas alcoólicas e praticantes de sexo desenfreado, sem qualquer tipo de envolvimento social. Uma juventude que vive entre a tensão racial, a luta entre classes e a falta de horizontes intelectuais!
O que acontece, na realidade, na obra, é que Wolfe, ao querer criticar um extremo da juventude de hoje, usou um outro extremo: Charlotte Simmons – uma campónia que nunca tinha saído das montanhas até ir para a universidade, altura essa em que consegue entrar numa das melhores universidades dos E.U.A., arrecadando ainda uma bolsa de estudos; a nível académico é um génio; com 18 anos já leu todos os grandes clássicos; é uma católica praticante exemplar; é virgem; nunca apanhou uma bebedeira; não diz palavrões e fica escandalizada só de ouvir os colegas dizer a palavra “mer**”.
Apesar de detestar os dois extremos, estou a adorar o livro. Não é uma literatura compacta, mas é intensa, descreve as personagens e as cenas de uma forma “nua” que, por vezes, choca, e refiro-me a ambas as partes envolvidas, quer no caso de Charlotte, quer na restante comunidade académica.
Bem, agora uma crítica ao Sr. Wollfe: penso que não tomou a melhor opção ao usar um extremo, para criticar outro, pois, dessa forma, o livro torna-se muito enfadonho, existindo apenas o preto e o branco. Além disso se queria retratar a realidade dos dias de hoje, apesar da juventude estar bem retratada a nível linguístico e organizacional, a personagem que usou para a criticar é completamente descontextualizada e desleal do retrato realista que pretendia conferir à obra.
E digo mais: o autor John C. Parkin lançou um livro intitulado “Fuck It”, onde defende que devemos começar a usar a expressão em voz alta e acredita que ela funcionará como um catalizador para mudarmos a nossa vida. Para melhor. Segundo ele, se somarmos, durante uma semana, todos os «sim» que na realidade deveriam ter sido «não», vamos ficar exaustos com a soma. E com o estrago que fizemos na mossa qualidade de vida.
"Quantas vezes já lhe apeteceu? Quantas vezes engoliu em seco e não foi capaz de o dizer? Experimente fazê-lo, uma vez. Esqueça o que os outros vão pensar ou que considerações vão tecer. Diga «fuck it». Diga-o, em voz alta. Às vezes, é terapêutico."
Sabe que mais Mr. Wolfe? Eu concordo com John Parkin e acho que, quando um jovem, como qualquer pessoa de outra(s) idade(s) está realmente chateado, nunca dirá (para bem da sua saúde mental): “Caquinha para isto tudo”!,
Nem mesmo Charlotte Simmons*
Buh!
Há 2 anos
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